Zac Zagol em seu primeiro dia como advogado, sentado em sua sala em São Paulo
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De Americano a Advogado Brasileiro: Minha História

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A Descoberta do Brasil aos Dezoito Anos

Eu ainda era um adolescente quando tudo mudou. Na internato no Canadá, durante os últimos anos do colegial, conheci um grupo de estudantes brasileiros que me hipnotizaram com suas histórias. Não era o que eles diziam — era como eles viviam. Viam a vida de um jeito que nunca tinha visto antes. Tudo era uma celebração. Tudo era alegre. Tudo era amizade genuína.

Eles me convidaram várias vezes para vir ao Brasil, e em cada conversa, eu via aquele brilho nos olhos que você só tem quando fala do lugar que ama. Eu precisava ver por mim mesmo.

Aos 18 anos, comprei uma passagem aérea. Hoje em dia você compra online em cinco minutos, mas naquela época, precisei de um agente de viagens. Não tinha muito dinheiro. Aos 15, tinha comprado um Mustang 1967 azul — quebrado, batido, praticamente sucata — por dois mil dólares. Passei anos consertando nos finais de semana, nas férias de verão. Vendi aquele carro que eu adorava para ter passagem e algum dinheiro para começar essa nova vida. Não sabia ainda que estava vendendo meu passado americano por um futuro no Brasil.

Chegada a São Paulo

Aterrissamos em Congonhas. Meus amigos me pegaram no aeroporto e logo começou a primeira lição de um brasileiro: “Você precisa torcer para o Palmeiras!” Ri, achei que era brincadeira. Não era.

Fomos para a Rodoviária da Barra Funda em São Paulo. Eu esperava algo estruturado, americano. O que vi foi caos controlado — pessoas em todas as direções, barulho, cheiro, movimento de uma metrópole viva que nunca dormia. Meu coração acelerou. Meus amigos riram da minha reação.

Provei meu primeiro pão de queijo. Tomei Guaraná. Tudo era diferente, estranho, assustador e absolutamente maravilhoso.

Não falava quase nada de português. Zero. Meu nível era de uma criança de cinco anos no máximo. Mas havia algo contagiante em tudo. Os brasileiros ao meu redor não pareciam ver um americano perdido — viam uma pessoa que tinha escolhido estar ali, e isso bastava.

Fomos para Presidente Prudente, onde fiquei com amigos e suas famílias. Lá eu observava, absorvia. Via como os brasileiros realmente vivem — não o Brasil dos turistas, mas o Brasil verdadeiro. Como tratam a família. Como celebram as coisas simples. Como uma festa de churrasco no fim de semana reúne gerações. Como um bolo de aniversário não é só um evento — é sagrado.

Imersão Completa

Aos dezoito anos, sozinho, falando português de criança, em uma cidade do interior de São Paulo, comecei a aprender a viver.

Voluntariei em atividades comunitárias. Ensinava crianças a jogar futebol em um projeto social. Era humilhante ver uma realidade tão diferente da minha infância americana — mas humilhante no melhor sentido. Humanizador. Aquelas crianças sorriam com tão pouco, e jogavam com tanto coração. Aprendi que felicidade não era algo que você comprava. Era algo que você construía — com amigos, com comunidade, com propósito.

Comecei a entender a cultura de um jeito que nenhum turista jamais entenderia. Aprendi que Brasil não era só um país — era uma forma de estar no mundo. Era otimismo. Era jogo de cintura. Era aproveitar cada segundo de vida como se fosse o último.

As festas duravam até o nascer do sol. Eram graduações que duravam três dias — não uma cerimônia de duas horas em um auditório. Eram casamentos que celebravam não só dois corações, mas famílias inteiras encontrando um ao outro.

O Risco de Ficar

Passei três meses vivendo essa vida. Três meses era o tempo que meu visto de turista permitia. Mas algo tinha mudado em mim. Eu não era mais o rapaz americano que tinha chegado no Congonhas. Eu era alguém que tinha descoberto algo essencial — a sensação de que você tinha escolhido estar em um lugar porque amava, não porque era obrigado por circunstância.

Sabia que isso seria para sempre. Não como uma viagem. Como uma vida.

Minha mãe, lá nos Estados Unidos, não entendia. “Você vai ficar quanto tempo?” Ela perguntava. Eu não tinha resposta porque a resposta era: “Sempre.” E isso a assustava.

Mas eu sabia. Aquele Mustang azul tinha me levado de volta para casa — e a casa não era America. Era Brasil.

A Faculdade de Direito na USP

A decisão de fazer Direito não veio de uma vocação intelectual abstrata. Veio da necessidade. Eu precisava entender o sistema que governava minha vida no Brasil — vistos, contratos, impostos, direitos. E se eu ia morar aqui para sempre, queria mais do que sobreviver dentro desse sistema. Queria dominá-lo.

Entrar na USP foi um desafio monumental. O vestibular da FUVEST é uma prova que exige domínio profundo da língua portuguesa, de literatura brasileira, de história do Brasil. Eu era um americano que tinha aprendido português nas ruas. Meus colegas de cursinho tinham passado a vida inteira lendo Machado de Assis e estudando a Constituição de 1988. Eu mal sabia conjugar verbos no pretérito mais-que-perfeito.

Estudei como nunca tinha estudado na vida. Acordava às cinco da manhã. Lia tudo que encontrava. Fiz cursinho durante um ano e meio. Quando finalmente passei, chorei. Não por orgulho — por alívio. Eu tinha provado para mim mesmo que pertencia ali.

A faculdade de Direito da USP no Largo São Francisco é uma instituição com quase duzentos anos de história. Andar por aqueles corredores, saber que ali passaram presidentes, ministros do STF, advogados que moldaram o país — era intimidador. E motivador. Eu era o único americano na minha turma. Era novidade para todos, inclusive para mim.

As aulas eram densas. Direito Constitucional, Direito Civil, Processo Civil, Direito Penal — cada matéria era um universo próprio. Mas o que mais me marcou foram as aulas de Direito Internacional e Direito Migratório. Ali, pela primeira vez, vi minha história pessoal refletida nos livros. Os casos que estudávamos não eram abstratos para mim — eram minha realidade.

Fiz amizades que duram até hoje. Colegas que me ajudaram com o português jurídico, que revisavam meus trabalhos, que riam dos meus erros de concordância. O ambiente acadêmico da USP me ensinou que rigor intelectual e calor humano podem coexistir.

Estudando para a OAB

Terminar a faculdade foi apenas metade da batalha. Para exercer advocacia no Brasil, você precisa ser aprovado no Exame da Ordem dos Advogados do Brasil — a OAB. O exame é notoriamente difícil. A taxa de aprovação na primeira fase gira em torno de 20% a 30%. Muitos brasileiros formados em excelentes faculdades não passam na primeira tentativa.

Para mim, o desafio era duplo. Além de dominar a vasta legislação brasileira — Código Civil, Código Penal, Constituição Federal, CLT, Código de Processo Civil, Estatuto da Criança — eu precisava fazer isso em uma língua que não era minha. O português jurídico é denso, formal, cheio de termos latinos e construções que desafiam até falantes nativos.

Montei um cronograma rígido. Três meses de estudo intensivo, oito horas por dia. Fiz simulados até perder a conta. Decorei artigos de lei até sonhar com eles. Quando o dia da prova chegou, minhas mãos tremiam. Sentei na cadeira, abri o caderno de questões, e comecei.

Passei. Na primeira tentativa.

Quando vi meu nome na lista de aprovados, senti algo que é difícil descrever. Não era só uma conquista profissional. Era a confirmação de que um garoto americano que vendeu um Mustang velho para comprar uma passagem podia, de fato, se tornar advogado em um dos sistemas jurídicos mais complexos do mundo.

O Choque Cultural de Ser Advogado no Brasil

Praticar Direito no Brasil é fundamentalmente diferente de qualquer coisa que eu pudesse imaginar baseado na cultura jurídica americana. Nos Estados Unidos, a advocacia é adversarial. Aqui, é relacional. As negociações acontecem em almoços, em cafés, em conversas que começam com “como vai a família?” antes de chegar ao mérito.

Nos meus primeiros meses como advogado, cometi erros que parecem cômicos agora. Tentei ser direto demais em reuniões — no estilo americano — e percebi que isso era interpretado como grosseria. Aprendi que no Brasil, construir confiança pessoal é pré-requisito para qualquer relação profissional. Você não contrata um advogado que conhece a lei; contrata um advogado em quem confia.

O sistema judicial brasileiro também foi um choque. A lentidão dos processos, a burocracia cartorária, a complexidade tributária — tudo isso exigiu paciência que eu, como americano acostumado à eficiência, não tinha naturalmente. Tive que aprender. E aprendi.

Meus Primeiros Casos

Meus primeiros casos foram de imigração. Fazia sentido — eu conhecia aquela dor. Conhecia a ansiedade de não entender um formulário. Conhecia o medo de ter o visto negado. Conhecia a solidão de estar em um país estranho sem saber se você pode ficar.

Um dos meus primeiros clientes era um engenheiro canadense que queria trazer a esposa e os dois filhos para o Brasil. Ele tinha um emprego garantido em São Paulo, mas a burocracia do visto familiar estava travada há meses. Quando resolvemos o caso e vi aquela família reunida no aeroporto de Guarulhos, entendi por que tinha feito Direito. Não era pelos livros. Era por isso.

Depois vieram casos mais complexos: regularização de empresas estrangeiras, planejamento tributário para expatriados, naturalizações, questões de dupla cidadania. Cada caso trazia uma história humana por trás da questão jurídica. E era essa humanidade que me movia.

O Que Significa Ser Advogado no Brasil

Ser advogado no Brasil é mais do que uma profissão. É uma missão. Em um país onde o sistema jurídico é complexo, onde a burocracia pode ser sufocante, onde as regras mudam com frequência — o advogado é muitas vezes a única pessoa que pode traduzir esse caos em algo compreensível para o cliente.

Para mim, ser advogado americano no Brasil é uma posição única. Entendo os dois mundos. Quando um americano chega ao Brasil confuso com o CPF, o RNE, o INSS, a FGTS — eu sei exatamente como ele se sente. Porque eu fui ele. Quando um brasileiro precisa resolver uma questão jurídica que envolve os Estados Unidos — eu conheço aquele sistema também.

Essa ponte entre dois mundos é o que define minha prática. Não sou apenas um advogado que fala inglês. Sou um advogado que viveu a imigração, que entende a emoção por trás de cada documento, que sabe que por trás de cada processo há uma pessoa com medo, esperança e um sonho.


A Próxima Fase

Meu pior desafio ainda estava por vir: descobrir como morar permanentemente nesse país que eu amava, sem falar sua língua. Mas isso é outra história.

Se você está considerando vir ao Brasil ou está aqui e se sentindo perdido — saiba que essa sensação inicial é apenas o começo. O Brasil mudará você. Pode parecer assustador agora, mas é exatamente onde você precisa estar.

Se você está navegando sua própria jornada de imigração para o Brasil, a ZS Advogados está aqui para orientá-lo em cada passo. De vistos a residência permanente, minha equipe entende não só as leis, mas também a emoção dessa transição. Vimos por experiência própria — e queremos ajudar você a ter a mesma história de sucesso.


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Este artigo tem carater informativo e nao substitui consulta juridica individualizada. Cada caso possui particularidades que devem ser analisadas por um advogado.

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Karina Peres Silverio

Karina Peres Silverio

Advogada — OAB/SP 331.050

Socio fundador do ZS Advogados. Advogado americano inscrito na OAB/SP (351.356) com LL.M. da USC e mais de 15 anos de experiencia no Brasil.

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