Zac em uma biblioteca da universidade, cercado por livros de direito
Minha Jornada 13 min de leitura

Cinco Anos na Faculdade de Direito: O Que Os Livros Não Ensinam

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O Ritmo da Vida Universitária Brasileira

A universidade no Brasil é completamente diferente da América. Você não escolhe suas aulas. Não há “cardápio” de cursos onde você monta seu próprio currículo. Todos fazem as mesmas aulas. Todos os alunos do primeiro ano entram na mesma sequência, passam pelos mesmos professores, aprendem as mesmas disciplinas na mesma ordem.

Isso era simultaneamente tranquilizador e assustador.

Minha jornada diária era simples: acordar cedo, chegar na universidade às 7h30, sentar em uma sala de aula com cem outros alunos, e absorver Direito Constitucional, Direito Civil, Direito Penal em português fluente — que ainda não era meu português.

As aulas terminavam às 11h30. Depois tinha trabalho ensinando inglês. Depois tinha estudo.

As férias eram curtas — apenas um mês em julho e outro em janeiro. Não havia luxo de “semana de descanso do meio do semestre.” Você acelerava, aprendia, avançava.

Ferramentas de Sobrevivência

Comecei a deixar um gravador cassete constantemente ligado durante as aulas. Meus professores achavam estranho no começo, mas eventualmente aceitaram. “Ah, é para você entender melhor depois?” perguntava um deles.

“Sim,” confirmava. Não era exatamente mentira, mas também não era toda a verdade. Era porque ouvir novamente em casa me permitia pausar, rewindear, focar nos pedaços que não tinha entendido.

Depois, com fones de ouvido, eu repassava a aula inteira. Às vezes uma aula de uma hora levava três horas para digerir, porque eu parava a cada frase, anotava palavras novas, procurava no dicionário.

Meu dicionário português-inglês virou meu melhor amigo.

A biblioteca foi minha segunda casa. Era lá onde conheci a senhora que não tenho nem certeza se soube meu nome legal. Para ela, eu era sempre “o americano.” Ela chegava com uma pilha de artigos — sobre direito constitucional, sobre história brasileira, sobre política — e dizia: “Vamos ler?”

Nós líamos juntas. Ela me mostrava como as palavras se conectavam. Como um parágrafo em português não é simplesmente tradução do inglês — é uma forma diferente de pensar, de estruturar ideias.

“Você não pode traduzir palavra por palavra,” ela me dizia. “Você tem que entender o espírito da frase.”

Os Professores Que Me Salvaram

Professor Sergio não era só um mentor acadêmico. Ele era um pai acadêmico. Quando chegava cansado, desmotivado, achando que não ia conseguir, ele puxava uma cadeira, sentava-se comigo, e dizia:

“Você está aqui. Na minha universidade. Falando português. Discutindo direito constitucional. Isso é impossível, mas você está fazendo. Então termine.”

Não havia empatia falsa. Não havia “coitadinho, você é estrangeiro.” Havia apenas o reconhecimento de que o impossível estava acontecendo e que eu deveria simplesmente continuar.

Outros professores também abraçaram o experimento. Alguns permitiam que eu fizesse provas orais em vez de escritas, porque a leitura era meu ponto forte. Outros deixavam que eu entregasse um trabalho escrito em inglês e depois traduzíssemos juntos — não como uma trapaça, mas como parte do processo de aprendizado.

“É assim que aprendemos,” disse um professor uma vez. “Você traduz do inglês para português, e nesse processo, você entende como a lei funciona em português.”

Fazia sentido.

A Vida Além da Sala de Aula

Mas a faculdade era mais que aulas. Era amigos. Brasileiros que não viam um americano — viam um colega que estava passando pela mesma tortura que eles.

Estudávamos juntos na biblioteca. Ocasionalmente um deles traía lanchinho. Tomávamos café. Falávamos sobre os professores, sobre as aulas chatas, sobre os professores que eram gênios.

Eles também me ensinavam — não formalmente, mas através da convivência. Me corrigiam quando eu falava errado. Riam das minhas tentativas de entender piadas em português. Me levavam para bares depois da aula onde, ao lado de uma cerveja, o português finalmente fluía um pouco melhor.

Fiz amigos que se tornaram irmãos. Pessoas que ainda falo com regularidade.

No terceiro ano, durante essas amizades, lancei minha escola de inglês. Meus amigos me ajudavam. Alguns até davam aula comigo — em troca de aulas de português mais intensa. Era um comércio de conhecimento natural, orgânico.

O Desafio do Português Técnico

O português que aprendi nas ruas de Presidente Prudente era diferente do português de uma sala de aula de direito.

Quando você fala com um amigo, pequenas imprecisões não importam. “Eu fui para casa” em vez de “Eu fui à casa” — ninguém se importa.

Mas em um ensaio sobre direito constitucional? Tudo importava.

Tive que aprender não apenas a linguagem casual, mas a linguagem técnica. Termos legais em português que não têm equivalentes perfeitos em inglês. Estruturas gramaticais específicas. O jeito que advogados brasileiros escrevem — formal, preciso, quase arcaico às vezes.

Uma disciplina chamada “Técnica Jurídica” foi particularmente desafiadora. Era basicamente “Como escrever como um advogado.” Cada sentença tinha que ser perfeita. Cada parágrafo tinha que seguir uma lógica específica.

Passei essa disciplina na terceira tentativa.

A professora, quando soube que era minha terceira vez, e que finalmente tinha passado, veio me abraçar na frente de toda a classe.

“Você fez,” disse-me. “Você realmente fez.”

Seus olhos estavam úmidos.

As Partes Que Ninguém Fala

Ninguém fala sobre a dificuldade de estar em uma sala de aula onde todos estão rindo de uma piada e você precisa pedir explicação. Ninguém fala sobre escrever um exame e saber que sua gramática não está perfeita, e basicamente está rezando para que o professor entenda seu ponto através do sotaque.

Ninguém fala sobre como, por cinco anos, você é simultaneamente um aluno normal e uma atração — um experimento vivo de “um americano pode realmente se tornar advogado no Brasil?”

Mas você também aprende que “estranho” pode ser uma vantagem. Meus professores não queriam apenas que eu passasse — queriam prová-lo possível. Queriam que eu fosse exemplo de que a educação brasileira era boa o suficiente, era acessível o suficiente, para transformar até mesmo um menino americano que não falava a língua.

Isso criava uma pressão silenciosa e também uma rede invisível de suporte.

Formação e Além

No quinto ano, finalmente estava lá. Minhas notas eram respeitáveis — não brilhantes, mas boas. Tinha passado em todas as disciplinas. Tinha conhecimento de direito brasileiro. Tinha amigos que ainda são meus irmãos.

A formatura foi como descrito — três dias de celebração. Mas o que mais importava foi a conversa com Sergio depois de tudo terminar. Ele me pegou pelo ombro.

“Você tem potencial,” disse-me. “Agora o trabalho real começa.”

E ele estava certo. A faculdade tinha me ensinado teoria. Tinha me dado o conhecimento. Mas a verdadeira prática — como funcionam os escritórios de advocacia, como você realmente defende um cliente, como você navega a política de um tribunal — tudo isso eu ainda tinha que aprender.


Reflexão

Olhando para trás, aqueles cinco anos foram sobre muito mais que direito. Foram sobre transformação. Sobre descobrir que você pode ser um estrangeiro em um país e ainda assim construir uma vida completa, significativa, dentro de suas instituições.

Foram sobre um Brasil que abraçou um americano e disse, “você é nosso agora, então vamos ajudá-lo.”

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Este artigo tem carater informativo e nao substitui consulta juridica individualizada. Cada caso possui particularidades que devem ser analisadas por um advogado.

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Karina Peres Silverio

Karina Peres Silverio

Advogada — OAB/SP 331.050

Socio fundador do ZS Advogados. Advogado americano inscrito na OAB/SP (351.356) com LL.M. da USC e mais de 15 anos de experiencia no Brasil.

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