Zac recebendo seu certificado OAB, numero 351.356, em cerimonia na faculdade
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Estudando para a OAB Sendo Estrangeiro: O Teste Mais Difícil da Min...

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O Medo Que Vinha Antes

Terminei minha faculdade de Direito com alívio. Aquele teste que eu tinha medo de não conseguir — faculdade de Direito sem falar português — eu tinha conseguido. Tinha passado em todas as disciplinas. Tinha um diploma.

Mas havia um próximo passo que era ainda mais assustador: a OAB.

A Ordem dos Advogados do Brasil é a ordem profissional que regulamenta quem pode e não pode praticar lei no Brasil. Para ser advogado, você tem que passar em um exame — a prova da OAB. Não é como nos Estados Unidos onde você tira um teste de múltipla escolha e pronto. No Brasil, é bem mais complexo.

E eu tinha medo.

Meu português tinha melhorado enormemente. Cinco anos ensinando a mim mesmo, conversando, lendo, escrevendo. Mas ainda tinha sotaque forte. Ainda tinha dificuldades com masculino e feminino. Minha grafia escrita ainda tinha problemas ocasionais.

E aquela prova… aquela prova era a realidade. Se falhasse, todo o meu trabalho — cinco anos de faculdade, cinco anos ensinando inglês, cinco anos de estudo — tudo seria questionado.

Não era só sobre lei. Era sobre se eu merecia estar aqui. Se realmente podia ser um advogado brasileiro.

A Estrutura da OAB

A OAB tinha duas fases.

A primeira fase era múltipla escolha — 80 questões de direito. Você precisa de pelo menos metade correto para passar. Não parecia tão impossível. Múltipla escolha eu podia fazer. Tinha aprendido a entender português jurídico. Tinha lido centenas de casos.

Passei na primeira fase.

Não foi brilhante, mas foi o suficiente. Respirei aliviado.

A segunda fase era completamente diferente. Era uma prova discursiva — você recebia uma situação legal, um caso prático, e tinha que defender uma posição. Era uma redação jurídica real. E você tinha que escolher uma área — Direito Penal, Direito Civil, Direito do Trabalho, Direito Administrativo, Direito Constitucional.

A maioria dos meus colegas escolhia Direito Penal. É o mais dramático, o mais popular. Parecia natural — crime, investigação, defesa.

Mas eu nunca tinha gostado de Direito Penal. Sempre me atraiu Direito Constitucional — questões sobre direitos fundamentais, sobre o que torna uma lei legal, sobre os princípios que guiam uma democracia.

E aqui estava meu problema: de 5.000 pessoas fazendo a OAB, apenas 3 ou 4 escolhiam Direito Constitucional.

Fui um desses 3 ou 4.

Preparação Intensa

Passei meses estudando. Não era nem estudo — era obsessão. Acordava cedo. Estudava até tarde. Lia decisões da Suprema Corte brasileira. Comparava como o Direito Constitucional funcionava no Brasil versus nos Estados Unidos.

Isso foi útil porque conseguia entender a lógica subjacente — tinha base comparativa. Mas também era complicado porque o sistema brasileiro é diferente. Tem conceitos que não existem exatamente no mundo americano.

Meu português jurídico tinha que ser perfeito. Estudei terminologia. Decorei estruturas de argumentação. Pratiquei redações uma e outra vez.

Meu orientador de tese, que tinha me ajudado durante faculdade, ofereceu-se para revisar minhas práticas de redação. Sentávamos em seu escritório depois de aula, e eu escrevia. Ele lia. E então destruía meu argumento.

“Por que você acha isso?” perguntava.

“Porque… porque a lei diz…”

“Sim, mas POR QUÊ? Qual é o princípio por trás? Qual é a lógica?”

Isso era Direito Constitucional. Não era memorizar. Era entender o porquê de cada lei.

Passei meses nesse processo. Cada redação era uma batalha mental. Cada revisão era um aprendizado.

A Noite Anterior

A noite antes da prova, não consegui dormir. Minha mente estava acelerada. Pensava em todos os casos que poderia cair. Pensava em como escrever rápido enquanto mantinha qualidade. Pensava em meu sotaque, em meu português, em como se o examiner lesse minha redação com preconceito.

Minha esposa (na época, minha namorada) tentava me tranquilizar.

“Você passou em cinco anos de faculdade,” ela disse. “Você passou na primeira fase. Você vai conseguir.”

Mas o medo não saía.

A Prova

Cheguei no local de prova cedo. Havia centenas de candidatos. Todos os meus colegas de faculdade estavam lá. Alguns escolheram Penal. Alguns Civil. Alguns Trabalho.

Recebi meu caso. Li.

Era uma questão sobre direitos fundamentais — direito à privacidade, direito ao acesso à informação, questões de liberdade. Exatamente no meu campo.

Comecei a escrever.

Três horas. Eu tinha três horas para fazer uma redação jurídica que teria que ser lida por um examiner da OAB. Que teria que convencer um profissional de que eu — um americano, com sotaque, que ainda tinha dificuldades ocasionais com português — era competente o bastante para ser um advogado.

Escrevi como se fosse a última coisa que faria na vida. Cada palavra era cuidada. Cada argumento era estruturado. Meu português não era perfeito — tinha pequenas imprecisões gramaticais. Mas minha lógica era sólida.

Quando o tempo acabou, estava exausto.

A Espera

Aquela semana entre a prova e o resultado foi uma das mais longas da minha vida. Não comia direito. Não dormia bem. Apenas esperava.

Meus colegas também esperavam. Alguns com confiança. Alguns com pavor. A maioria com incerteza.

Finalmente, os resultados saíram.

Procurei meu número. Li meu nome.

Aprovou. OAB — Ordem dos Advogados do Brasil. Número 351.356.

Eu era oficialmente um advogado.

O Significado

Quando comemorei com minha faculdade, ficou claro por que aquilo tinha importância tão profunda. Não era só por mim. Era porque eu era o primeiro estrangeiro a passar na OAB por aquela universidade.

A Universidade Toledo tinha pegado um menino americano que não falava português, o colocado em uma sala de aula de direito, e cinco anos depois, tinha um advogado. Um advogado que passava na OAB da primeira vez.

Havia orgulho em cada rosto.

E havia também uma mensagem: que o Brasil era inclusivo. Que você poderia chegar sem falar a língua, estudar a lei em português, e se tornar um legal professional. Que o sistema funcionava.

Reflexão Profunda

Hoje, tendo praticado lei por anos, entendo que aquela prova da OAB não foi apenas um teste de conhecimento jurídico. Foi um teste de determinação. De identidade. De pertencimento.

Eu tinha escolhido o Brasil. Tinha escolhido aprender sua língua. Tinha escolhido estudar sua lei. Tinha escolhido praticar em seus tribunais.

E o Brasil, através da OAB, disse: “Sim. Você é nosso agora.”

Aquele número — 351.356 — não é só um registro. É uma declaração. É um passaporte para uma vida que escolhi.


O Caminho Continua

Passar na OAB foi um marco, mas foi também apenas o começo. Agora tinha que praticar. Tinha que ganhar experiência. Tinha que provar que realmente merecia estar ali.

E essa próxima parte — como foi meu primeiro caso, como foi ir para o tribunal — isso é para outro dia.

Mas naquele momento, quando recebi meu certificado, quando ouvi “Parabéns, advogado,” eu sabia que tinha conseguido algo que parecia impossível.

Se você está em uma jornada parecida — imigrando, estudando, querendo praticar lei no Brasil — entendo o desafio. ZS Advogados está aqui não só para orientar você sobre o processo legal, mas para entender a jornada pessoal. Passei por isso. Conheço cada passo.


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Este artigo tem carater informativo e nao substitui consulta juridica individualizada. Cada caso possui particularidades que devem ser analisadas por um advogado.

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Karina Peres Silverio

Karina Peres Silverio

Advogada — OAB/SP 331.050

Socio fundador do ZS Advogados. Advogado americano inscrito na OAB/SP (351.356) com LL.M. da USC e mais de 15 anos de experiencia no Brasil.

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