Zac em frente a sua escola de inglês, ao lado de alunos e colegas professores
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Abri uma Escola de Inglês no Brasil — E Aprendi Mais do Que Ensinei

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O Empreendimento Inesperado

Estava no terceiro ano de faculdade de Direito quando a ideia chegou. Já estava ensinando inglês individualmente — indo para casas, dando aulas particulares para crianças e adolescentes. Era estável. Ganhava o suficiente para ajudar com as contas da universidade.

Mas pensei: por que não expandir?

Naquela época, inglês era luxo no Brasil interior. Presidente Prudente não tinha muitas opções de escolas de idiomas. Havia demanda. Havia interesse. Havia familias dispostas a pagar.

E eu tinha o produto: um americano nativo, vivendo no Brasil, que poderia ensinar não só a língua, mas a cultura americana.

Decidi abrir minha própria escola de inglês.

O Que Ninguém Me Contou Sobre Negócios no Brasil

Meus amigos da faculdade acharam loucura. “Você está na faculdade de Direito! Como você vai gerenciar uma escola?”

Mas foi exatamente naquele momento que comecei a entender algo que nenhuma aula de Direito Empresarial tinha me ensinado: como as coisas realmente funcionam no Brasil.

Abrir uma empresa no Brasil é um processo. Tem paperwork. Tem burocracia. Você precisa de um CNPJ — número de registro de empresa. Precisa registrar na prefeitura. Precisa abrir uma conta bancária para a empresa. Precisa de um contador.

Tudo isso parecia simples em teoria. Na prática, foi uma série de descobertas.

Primeiro, descobri que você não pode simplesmente “decidir abrir uma escola.” Tem regulações. Tem permissões de funcionamento. Tem regras sobre espaço físico, sobre segurança.

Segundo, descobri o mundo das relações brasileiras. Você não vai ao órgão público com seus documentos e espera. Você vai ao órgão público, encontra a pessoa responsável, constrói relacionamento. Você pergunta para seus amigos “quem você conhece?” Você pede indicação. É tudo muito pessoal.

“Tenho um primo que trabalha na prefeitura,” disse um colega. “Vou falar com ele.”

Magicamente, coisas que pareciam complicadas ficaram simples.

A Escola Funciona

Uma vez que consegui as permissões (graças às conexões certas), a escola saiu do papel para a realidade. Aluguel de um espaço. Compra de mesas, cadeiras, quadros brancos. Contratação de outros professores.

E começou a funcionar muito bem.

Estudantes começaram a chegar. Pais que queriam seus filhos falando inglês. Adolescentes que queriam preparação para universidades. Crianças pequenas que queriam começar cedo.

Era rentável. Muito mais rentável do que ensinar em casas particulares. Um negócio escala. Você está ensinando vários alunos ao mesmo tempo, pagando dividendos pelo seu tempo.

Mas foi exatamente aí que aprendia a próxima lição sobre negócios no Brasil: como lidar com pessoas.

O Lado Humano do Negócio

Administrar funcionários no Brasil é diferente de qualquer coisa que eu esperava. Seus professores não são só funcionários — são colegas de trabalho, são amigos, eventualmente são confidentes.

Você contrata alguém e logo está ouvindo sobre sua vida pessoal. Seu professor está tendo problemas com namorado? Você sabe. Tem dificuldade financeira? Você sabe. Sonha em sair do Brasil? Você ouve tudo.

Isso não é separação entre trabalho e vida pessoal — é uma integração completamente diferente do que experienciei na América.

Ofereci aos meus professores não só salário, mas também flexibilidade, suporte, amizade. Um deles era um músico que precisava de um trabalho que respeitasse seu horário de ensaios. Trabalhamos nisso. Outra era mãe solteira que precisava de horários adaptados. Adaptamos.

Fiz uma amizade genuína com meus professores. Alguns ainda converso.

Como os Negócios Realmente Funcionam

Naquele tempo de escola, aprendi mais sobre como funciona um negócio no Brasil do que qualquer aula de administração poderia me ensinar.

Aprendi sobre inflação — como manter preços altos o suficiente para lucrar, mas baixo o suficiente para que famílias continuem pagando.

Aprendi sobre marketing — não publicidade cara, mas boca a boca. Clientes satisfeitos trazem novos clientes. Uma mãe feliz com o progresso de seu filho fala para cinco amigas.

Aprendi sobre empréstimos bancários — como negociar com bancos, como justificar um empréstimo, como trabalhar com juros.

Aprendi sobre impostos — o quão complicado é o sistema tributário brasileiro. Você precisa fazer relatórios, pagar percentagens, manter registros.

Aprendi sobre como encontrar espaço físico — onde alugar, como negociar aluguéis, como lidar com proprietários.

Todas essas coisas que você não aprende na faculdade. Você aprende vivendo.

Mas Isso Não Era Meu Sonho

Depois de alguns anos, a escola estava crescendo. Era bem-sucedida. Estava ganhando dinheiro. Tinha uma equipe. Tinha reputação.

Mas percebi algo importante: eu nunca tinha querido ser dono de escola de inglês.

Queria ser advogado.

A escola foi um desvio — um desvio lucrativo, um desvio educacional, mas um desvio. Ela aparecia em minha vida porque eu precisava de renda enquanto estudava. Mas não era minha paixão.

Decidi vender minha parte da escola. Passei para o próximo empreendedor — alguém que realmente queria construir isso.

Não me arrependo. Devo essa experiência de negócios à escola. Entendo como companhias funcionar. Entendo a mente de um empreendedor. Quando, anos depois, clientes vieram a mim com problemas legais sobre seus negócios, eu entendia — não como um advogado que lê livros, mas como alguém que viveu.

O Que Aprendi Para Levar

Abrir uma escola de inglês no Brasil me ensinou que o país é, em muitos aspectos, uma terra de oportunidades. Se você tem uma habilidade, há pessoas dispostas a pagar. Se você trabalha duro, pode construir algo.

Também me ensinou que nada é preto e branco no Brasil. Tudo é relacional. Tudo tem camadas. Você não apenas segue as regras — você entende as regras, mas também entende as pessoas que fazem as regras, e trabalha com ambas.

Essa lição se tornaria crucial quando comecei a praticar lei.


Reflexão Final

Muitos imigrantes que chegam ao Brasil com uma habilidade — seja inglês, seja outra profissão — abrem negócios. Alguns fazem muito sucesso. Outros fracassam.

O Brasil oferece oportunidades. Mas oferece também complexidade. Burocracia. Relacionamentos que importam tanto quanto competência.

Se você está pensando em abrir um negócio no Brasil, ou está já gerenciando uma empresa e enfrentando desafios legais, ZS Advogados entende tanto a lei quanto a realidade prática do fazer negócios aqui. Tenho vivido nos dois lados — como empreendedor e como advogado. Posso ajudá-lo.


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Este artigo tem carater informativo e nao substitui consulta juridica individualizada. Cada caso possui particularidades que devem ser analisadas por um advogado.

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Karina Peres Silverio

Karina Peres Silverio

Advogada — OAB/SP 331.050

Socio fundador do ZS Advogados. Advogado americano inscrito na OAB/SP (351.356) com LL.M. da USC e mais de 15 anos de experiencia no Brasil.

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